Ibovespa desaba 13,88%, dólar dispara 8,21% e Bolsa registra maior queda desde 2020
O mercado financeiro brasileiro encerrou esta segunda-feira (26/10/2026) em um dos pregões mais turbulentos dos últimos anos. No primeiro dia de negociações após a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o Ibovespa despencou 13,88%, aos 176.608,23 pontos, enquanto o dólar comercial disparou 8,21%, encerrando cotado a R$ 5,4029.
A reação refletiu a revisão abrupta das posições de investidores que esperavam uma vitória de Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno presidencial. O resultado eleitoral aumentou a percepção de risco em relação à condução da política econômica, às contas públicas e à trajetória da dívida brasileira.
A queda do principal índice da Bolsa brasileira foi a mais intensa desde março de 2020, durante a crise provocada pela pandemia de Covid-19. A sessão também registrou o acionamento do circuit breaker, mecanismo que interrompe temporariamente as negociações diante de perdas acentuadas.
Bolsa de Valores
O Ibovespa encerrou o pregão aos 176.608,23 pontos, com desvalorização de 13,88%. O índice oscilou entre a máxima de 205.088,74 pontos, próxima do fechamento anterior, e a mínima de 169.516,43 pontos, quando a queda chegou a 17,34%.
O volume financeiro alcançou R$ 88,6 bilhões, mais de três vezes a média diária habitual, refletindo a intensidade dos ajustes de carteira e das ordens de venda.
A B3 acionou o circuit breaker no início da sessão, suspendendo temporariamente as negociações do mercado à vista. Foi a primeira ocorrência do mecanismo desde março de 2020. A medida buscou conter os efeitos da queda abrupta e permitir a reorganização das ofertas antes da retomada dos negócios.
O Ibovespa Futuro também registrou forte desvalorização. Os contratos chegaram a operar nos limites ampliados de oscilação durante a sessão, evidenciando a intensidade do choque sobre os ativos brasileiros.
No acumulado de 2026, o Ibovespa passou a registrar alta de aproximadamente 9,61%. Em outubro, o índice acumulou queda de cerca de 5,22%, revertendo os ganhos que mantinha até o pregão anterior.
Entre os fatores que pressionaram as ações estavam a elevação dos juros futuros, a redução da exposição ao risco brasileiro e a revisão das expectativas sobre a política econômica do próximo mandato. Empresas mais dependentes do crédito e do consumo foram particularmente vulneráveis, enquanto algumas exportadoras encontraram suporte na valorização do dólar.
Dólar dispara
O dólar comercial fechou em R$ 5,4029 na venda, com alta de 8,21%, registrando uma das maiores valorizações diárias da moeda norte-americana desde a adoção do regime de câmbio flutuante, em 1999.
Durante a manhã, a cotação chegou a superar R$ 5,60, antes de devolver parte dos ganhos ao longo do pregão. A movimentação refletiu a busca por proteção cambial, a reversão de posições montadas antes da eleição e o aumento do prêmio de risco exigido pelos investidores.
No mercado paralelo, a cotação indicativa informada ficou em R$ 5,58 na compra e R$ 5,68 na venda, com alta de 8,84%. Esse mercado, porém, não possui a mesma referência padronizada e a mesma formação de preços do câmbio comercial.
A valorização do dólar pode pressionar os custos de importação, combustíveis, insumos industriais e produtos cotados em moeda estrangeira. Caso o movimento persista, poderá dificultar a convergência da inflação para a meta e reduzir o espaço para cortes da taxa Selic.
Juros e política fiscal
A curva de juros futuros apresentou forte elevação, refletindo a maior remuneração exigida pelos investidores para manter recursos aplicados em títulos e contratos brasileiros de prazo mais longo.
A principal preocupação é a trajetória das contas públicas. Investidores avaliam como o governo pretende administrar as despesas, estabilizar a dívida pública e construir apoio no Congresso para medidas econômicas e fiscais.
A reação do mercado também indica uma revisão das expectativas para a política monetária. Uma combinação de real depreciado, juros futuros elevados e maior incerteza fiscal pode encarecer o crédito, reduzir o investimento e afetar setores sensíveis ao financiamento, como varejo, construção civil e empresas com elevado endividamento.
Isso não significa, entretanto, que uma decisão específica do Banco Central esteja definida. A condução da Selic dependerá da evolução da inflação, das expectativas econômicas e dos próximos sinais da política fiscal.
Petróleo recua, mas segue em patamar elevado
No mercado internacional, os preços do petróleo recuaram nesta segunda-feira, após a forte valorização registrada na semana anterior. O Brent, referência global, encerrou próximo de US$ 115,81 por barril, com queda de aproximadamente 0,8%. O WTI, referência nos Estados Unidos, terminou em torno de US$ 101,76, recuo de cerca de 1,5%.
Na sexta-feira (23/10), o Brent havia fechado a US$ 116,72, com alta de 3,14%, enquanto o WTI avançara 3,80%, para US$ 103,27. O movimento da sessão anterior havia levado o Brent ao maior fechamento em quase seis meses.
A correção desta segunda-feira foi influenciada pela expectativa de negociações diplomáticas para reduzir as tensões entre Estados Unidos e Irã. Autoridades da Arábia Saudita, do Paquistão e da Turquia participavam de esforços para discutir a segurança regional em Teerã.
Apesar da perspectiva de diálogo, os riscos de abastecimento continuam relevantes. Ataques atribuídos aos houthis contra alvos sauditas e ameaças às rotas marítimas mantêm o mercado atento à possibilidade de interrupções na produção e no transporte de petróleo.
A queda da commodity oferece algum alívio para os custos energéticos, mas os preços continuam elevados. Se as tensões persistirem, combustíveis e fretes poderão continuar pressionando os custos de produção e a inflação global.
Contexto
O pregão desta segunda-feira foi marcado principalmente por um choque doméstico. A reeleição de Lula contrariou as expectativas de parte dos investidores, que haviam montado posições considerando a possibilidade de alternância no governo federal. Com a confirmação do resultado, houve uma rápida revisão dos preços dos ativos, acompanhada de forte procura por dólares e aumento dos juros futuros.
A dimensão da reação reflete não apenas o resultado eleitoral, mas também as dúvidas sobre a orientação fiscal e econômica do próximo mandato. O comportamento dos mercados nos próximos dias dependerá dos sinais emitidos pelo governo, da composição da equipe econômica e da capacidade de articulação com o Congresso.
No exterior, a queda do petróleo contrastou com a turbulência brasileira. Os principais índices norte-americanos terminaram o dia em alta, reforçando a leitura de que a pressão sobre a Bolsa e o câmbio teve origem predominantemente doméstica.
Olhar Diário Fiscal
- Fator dominante: a reprecificação do risco brasileiro após o resultado eleitoral, com reversão de posições, forte saída de ativos de risco e busca por proteção cambial.
- Fator secundário: a elevação dos juros futuros e a incerteza sobre a política fiscal, que ampliam os custos de financiamento e podem limitar o espaço para flexibilização monetária.
- Impacto observado: queda de 13,88% do Ibovespa, acionamento do circuit breaker, alta de 8,21% do dólar e volume financeiro extraordinário. A retração do petróleo no exterior não foi suficiente para compensar a pressão doméstica.
Número do Dia
Ibovespa: 176.608,23 pontos, queda de 13,88%.
Volume financeiro: R$ 88,6 bilhões.
Dólar comercial: R$ 5,4029 na venda, alta de 8,21%.
Petróleo Brent: cerca de US$ 115,81 por barril, queda aproximada de 0,8%.
Olhar do Fechamento
A sessão mostrou como uma mudança nas expectativas políticas pode provocar ajustes expressivos nos preços dos ativos, sobretudo quando os investidores estão concentrados em determinadas apostas. A queda da Bolsa e a disparada do dólar, contudo, não definem por si só a trajetória futura da economia brasileira.
O próximo movimento dependerá da capacidade de o governo reduzir as incertezas sobre as contas públicas e apresentar sinais consistentes de política econômica. O mercado também acompanhará os efeitos do câmbio sobre a inflação e os juros, além da evolução das tensões geopolíticas e dos preços internacionais de energia.
A questão central é se o choque desta segunda-feira ficará restrito à correção inicial das posições ou se dará lugar a um período mais prolongado de volatilidade, com reflexos sobre o crédito, o investimento e a atividade econômica.